A cola da alma
O Sétimo Mandamento
Não adulterarás Êxodo 20:14
Não sei qual seria o relógio mais bonito do mundo na opinião dos
especialistas, mas em minha mente não tenho dúvidas a esse respeito. Seria o
relógio que sempre andou no bolso inferior esquerdo do colete do meu avô. Feito
de ouro, tinha uma abertura com dobradiças na parte de trás e, de vez em
quando, o vovô o abria para me deixar ver o pequeno mecanismo que se movia para
trás e para frente, para trás e para frente, a cada avanço do ponteiro dos segundos.
Outras rodinhas minúsculas moviam o suporte de diamante ao lado da mola-mestra
à qual o vovô dava corda todas as noites antes de ir para a cama.
O relógio tinha tanto que ver com o meu avô que parecia impossível imaginá-lo
sem ele.
Certa vez, quando eu tinha seis anos de idade, nossa família passou um
fim de semana com o vovô e a vovó. No domingo de manhã, acordei cedo. Mamãe e
papai ainda dormiam, mas ouvi um suave murmúrio de vozes vindo da cozinha, de
modo que saí e vi meus avós comendo mingau de aveia com molho quente de maçã e
creme por cima. Depois de um abraço de bom-dia, colocaram uma tigela sobre a
mesa para mim, e comi junto com eles. O colete do vovô estava desabotoado, mas
a corrente do relógio estava visível, como sempre, saindo da presilha que a
segurava e desaparecendo no bolso do colete.
Com os cotovelos sobre a mesa e o queixo nas mãos, olhei para o rosto
do idoso homem e expressei uma idéia que havia acabado de brotar na minha mente:
– Vovô, posso ficar com o seu relógio quando você morrer?
Não me lembro se os olhos azuis dele piscaram naquele momento, como
faziam com freqüência. Mas sua resposta ainda ecoa na minha memória.
– Sim – disse ele. – Quando eu morrer, o relógio será seu.
Um senso de reverência me dominou e fiquei indescritivelmente emocionado.
Acho que nem sequer terminei o desjejum antes de sair de mansinho e contar a
maravilhosa notícia para mamãe. Para meu espanto, ela ficou horrorizada.






